Panorama de mercado

O crédito garantido por FGTS que sustentava o varejo está sendo redesenhado

Por quase uma década, a antecipação do saque-aniversário do FGTS funcionou como um dos maiores motores de crédito de baixo risco para pessoa física no Brasil. O mecanismo permitia ao trabalhador antecipar, com um banco, parcelas futuras do saque-aniversário, oferecendo o próprio saldo do Fundo de Garantia como garantia real. Para o originador, isso significava uma operação com inadimplência estrutural baixa, porque o repagamento vinha direto do FGTS.

A escala foi expressiva. A antecipação do saque-aniversário movimentou R$ 179 bilhões em operações, e dos 36,4 milhões de trabalhadores que optaram pela modalidade, 23,3 milhões realizaram antecipação [fonte: InfoMoney/Mais Retorno, 2026]. Esse volume não era marginal: era uma fatia relevante da originação de varejo apoiada em garantia, exatamente o tipo de operação que permite aprovar público de renda mais baixa com perda controlada.

O ponto central para risco: quando uma garantia some, o risco não desaparece. Ele migra para outra modalidade de crédito e exige uma leitura de capacidade de pagamento que a garantia antes dispensava.

O que muda a partir de novembro de 2026

As novas regras limitam a antecipação a 3 saques a partir de novembro de 2026, ante os 5 saques permitidos até outubro de 2026, e o volume mensal caiu para cerca de R$ 600 milhões após as restrições [fonte: InfoMoney/Mais Retorno, 2026]. A redução do número de parcelas antecipáveis encurta o horizonte da garantia e, na prática, diminui o ticket e o apetite das instituições por esse produto.

O efeito de segunda ordem é o que importa para o gestor de carteira. O trabalhador que dependia da antecipação do FGTS para acessar liquidez não deixa de precisar de crédito. Ele migra para outras modalidades, sobretudo o consignado CLT e o crédito sem garantia, ambos com perfil de risco diferente do crédito lastreado em FGTS.

Para onde a exposição migra: consignado CLT e crédito sem garantia

O destino mais provável da demanda é o Crédito do Trabalhador, o consignado privado para CLT operado via eSocial, lançado em 21/03/2025. O programa ultrapassou R$ 101 bilhões em operações em janeiro de 2026, com 17,04 milhões de contratos firmados, 8,52 milhões de trabalhadores atendidos e juros médios de 3,2% ao mês, com mais de 70 instituições acessando o perfil do trabalhador CLT pelo eSocial [fonte: Ministerio do Trabalho e Emprego (gov.br), 2026]. As concessões de consignado para o setor privado saltaram 183,6% em 2025, para R$ 54,5 bilhões, e o governo projeta até 25 milhões de pessoas no consignado privado em até quatro anos [fonte: Viva/Agencia Brasil, 2025-2026].

O problema é que o consignado CLT só atende quem tem vínculo formal. Para o público informal, a saída é o crédito sem garantia, e aqui o risco se concentra: são mais de 32 milhões de trabalhadores autônomos, informais ou sem carteira, cerca de 1 em cada 3 trabalhadores no país [fonte: Nova Vida TI/IBGE, 2025]. Esse contingente perde acesso à garantia do FGTS e não se enquadra no consignado CLT, formando exatamente a população que mais demanda leitura de risco baseada em dados alternativos.

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Fontes

  1. InfoMoney / Mais Retorno - Bancos veem desaprovação a mudanças e fim das antecipações de saque-aniversário (2026)
  2. Ministério do Trabalho e Emprego (gov.br) - Crédito do Trabalhador supera R$ 101 bilhões em operações (2026)
  3. Nova Vida TI - Renda Presumida e análise de crédito (dado IBGE citado) (2025)
  4. Equifax Boa Vista via Finsiders - Inadimplência em bancos digitais sobe 163% em quatro anos (2026)
  5. Viva / Agência Brasil - Crédito do Trabalhador segue acelerado em 2026 (2025-2026)
  6. Agência Brasil (EBC) - Banco Central lança portabilidade de crédito no Open Finance (2026)
  7. Banco Central do Brasil - Estatísticas Monetárias e de Crédito (2026)
  8. Portal eSocial (gov.br) / Espaço Legislação TOTVS - Crédito do Trabalhador e histórico de vínculos (2026)
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