Panorama de mercado

A fraude CNP como principal vetor do e-commerce

A fraude em cartão não presente (CNP), categoria que reúne toda transação em que o cartão não é fisicamente apresentado (checkout online, in-app, recorrência e pagamentos por link), é o vetor dominante de perda no comércio eletrônico brasileiro. Em 2023, de aproximadamente 280 milhões de pedidos com cartão de crédito online, 3,7 milhões foram tentativas fraudulentas, ou cerca de 1,4% do total, equivalentes a R$ 3,5 bilhões [fonte: PagBrasil/Signifyd, 2023]. O número parece pequeno em proporção, mas a materialidade absoluta e o custo operacional do tratamento de disputas tornam a CNP uma dor estrutural de margem para lojistas, gateways e subadquirentes.

O chargeback, ou estorno, é o mecanismo pelo qual o portador contesta uma cobrança junto ao emissor. Em transações CNP, fraudes respondem por 40% a 60% dos chargebacks [fonte: PagBrasil/Signifyd, 2023]. O restante decorre de disputas legítimas, arrependimento e do chamado friendly fraud, em que o próprio comprador contesta uma compra que de fato realizou. O ponto crítico para o comprador de dados é que o estorno por fraude não apenas estorna o valor da venda, mas também onera o estabelecimento com taxas de disputa, custo de mercadoria já despachada e risco de descredenciamento por excesso de chargebacks.

Definição operacional: CNP cobre todo pagamento sem leitura física do cartão. O chargeback é o estorno disputado. Quando a causa do estorno é fraude (e não arrependimento), o custo recai duas vezes sobre o lojista: o valor estornado e o custo afundado da operação.

Identidade digital sob pressão em 2026

A camada que alimenta a fraude CNP é a fraude de identidade digital, que sustenta desde o roubo de credenciais até a criação de identidades sintéticas para abrir contas e testar cartões. As tentativas de fraude de identidade digital cresceram 36,6% no primeiro trimestre de 2026 ante o mesmo período do ano anterior [fonte: Serasa Experian via TI Inside, 2026]. Essa aceleração atinge diretamente o onboarding de sellers em marketplaces e a abertura de contas em gateways e subadquirentes, alargando a superfície de exposição para além do momento da transação.

O movimento se dá num país onde o orçamento de segurança já migrou de marketing para risco: quase 40% das empresas brasileiras planejam direcionar mais recursos à prevenção a fraude, acima de marketing (30,4%) e gestão de clientes (27,8%) [fonte: Serasa Experian via CartaCapital, 2025-2026]. Para o e-commerce e os meios de pagamento, isso significa que mitigar chargeback deixou de ser tema de back office e passou a ser decisão de alocação de capital.

Como aponta o Relatório de Identidade e Fraude da Serasa Experian, a prevenção a fraude superou o marketing como prioridade de investimento das empresas brasileiras, invertendo a hierarquia histórica de orçamento [fonte: Serasa Experian via CartaCapital, 2025-2026].

O custo total do chargeback além do valor estornado

Dimensionar a dor do chargeback exige somar quatro camadas de custo. A primeira é o valor da transação estornada. A segunda é o custo afundado da operação: mercadoria despachada, logística e tempo de atendimento que não retornam. A terceira são as taxas de disputa e representment cobradas pelas bandeiras e adquirentes a cada contestação. A quarta, e mais perigosa no médio prazo, é o risco de programa de monitoramento de chargeback das bandeiras, que pode elevar taxas, exigir garantias e, no limite, levar ao descredenciamento do estabelecimento.

Esse empilhamento explica por que mitigar fraude CNP no checkout tem retorno desproporcional. Cada estorno por fraude evitado preserva não só a receita, mas a saúde do índice de chargeback do lojista perante a cadeia de adquirência, que em 2025 movimentou cerca de R$ 4,2 trilhões em TPV, com os cinco maiores adquirentes detendo de 70% a 80% do total [fonte: Let's Money/Dock, 2025-2026]. Em um mercado concentrado, manter-se em conformidade com os limites de chargeback de cada adquirente é condição de operação, não apenas de margem.

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Fontes

  1. PagBrasil e Signifyd - Tipos de fraude com cartão de crédito em e-commerces (2023)
  2. Serasa Experian via TI Inside - Tentativas de fraude de identidade digital crescem 36,6% no 1o trimestre de 2026 (2026)
  3. Serasa Experian via CartaCapital - Empresas priorizam prevenção a fraude e reduzem foco em marketing (2025-2026)
  4. Let's Money e Dock - Mercado de adquirência e market share (2025-2026)
  5. CISO Advisor e Livecoins - 28 milhões de fraudes com Pix em 2025 (2024-2025)
  6. Pluggy e Finsiders Brasil - Open Finance 2026, novidades e consentimentos (2024-2026)
  7. MarkNtel Advisors - Brazil Banking as a Service (BaaS) Market (2025)
  8. Juniper Research e PwC via AuthBridge - Perpetual KYC guide (2024-2027)
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