Há meses circula no mercado de marketing uma ideia confortável: empresas de fintech seriam estruturalmente favorecidas pelas inteligências artificiais generativas, citadas com mais frequência do que marcas de varejo, tecnologia ou saúde quando alguém pergunta a um ChatGPT da vida qual o melhor banco, a melhor maquininha ou o melhor cartão. Um working paper publicado nesta quinta-feira, 11 de junho de 2026, mostra que a premissa está errada. A liderança da fintech existe nos números brutos, mas não é uma propriedade do setor: é a sombra projetada por uma única marca, o Nubank.

O estudo, assinado por Alexandre Caramaschi, Founder da Brasil GEO, ex-CMO da Semantix (Nasdaq) e cofundador da AI Brasil, analisou 62.820 observações de citações espontâneas de marcas coletadas entre 23 de abril e 9 de junho de 2026 em cinco motores de IA generativa — ChatGPT, Claude, Gemini, Perplexity e Groq — e quatro verticais brasileiras: fintech, varejo, tecnologia e saúde. Nos números agregados, a fintech lidera, com 28,15% de taxa de citação, à frente de varejo (24,94%), tecnologia (14,50%) e saúde (13,35%).

O problema aparece quando se desmonta o número. O Nubank, sozinho, concentra 49,7% de todas as menções de fintech. Quando o pesquisador remove as respostas que citam apenas o Nubank, a taxa de citação da fintech desaba de 28,15% para 11,46% — e o setor que liderava passa a ocupar o último lugar entre as quatro verticais. A razão de chances ajustada da fintech em relação à saúde, que era de 4,13 a favor, inverte para 0,77. Em uma frase: tire o Nubank e a fintech deixa de ser o setor mais citado para virar o menos citado.

O que o estudo mediu

A metodologia parte de uma pergunta simples de formular e difícil de responder com rigor: quando uma IA generativa responde a uma pergunta sobre uma categoria, quais marcas ela cita espontaneamente, sem que o usuário tenha pedido? Para cada motor e cada vertical, o estudo enviou conjuntos de perguntas canônicas em português e em inglês e contou, por reconhecimento de entidades, quais marcas apareciam nas respostas ao longo de quase sete semanas.

O resultado bruto confirmava o folclore de mercado: a fintech aparecia mais. Mas o autor não parou no agregado. Aplicou o que chama de teste de remoção da âncora, ou leave-one-out: o que acontece com a taxa de cada setor quando se retira de cena a marca dominante? É a operação que separa uma vantagem real de setor de uma concentração de marca disfarçada de vantagem de setor.

"A pergunta de partida foi por que a fintech é mais citada. A resposta honesta é que ela não é. O que existe é uma marca tão dominante que, sozinha, levanta a média da categoria inteira. Quando você remove o Nubank do cálculo, a suposta vantagem setorial evapora e o setor cai para o último lugar", afirma Caramaschi no paper.

Não é só a fintech: todo setor é puxado por âncoras

O achado não isola a fintech como anomalia. Ao repetir o teste de remoção em cada vertical, o estudo encontra o mesmo padrão em toda parte — o que muda é a quantidade de marcas-âncora. No varejo, a remoção de Mercado Livre e Magazine Luiza juntos derruba a taxa de citação do setor em 14,35 pontos percentuais. A diferença estrutural entre fintech e varejo, mostra o paper, é que a fintech tem uma única âncora (o Nubank), enquanto o varejo tem duas dividindo a liderança.

A conclusão teórica reformula o senso comum: a taxa de citação de qualquer setor nas IAs é dominada pelo seu núcleo de marcas-âncora. A fintech é apenas o caso extremo, com concentração máxima em uma só marca. Falar em "vantagem da vertical fintech" é, na prática, falar do Nubank com outro nome.

O motor de IA importa mais que o setor

Outro resultado desmonta a ideia de que existiria uma preferência sistemática das IAs por fintech. Dos cinco motores testados, apenas dois colocam a fintech acima do varejo. Os outros três mostram o oposto. A vantagem agregada, portanto, não é um traço comum das IAs: é dirigida por um ou dois motores específicos, enquanto os demais apontam na direção contrária.

Para Caramaschi, esse é o ponto de maior consequência prática para quem produz conteúdo de marca. "Não existe uma IA. Existem várias, e elas discordam entre si sobre quem merece ser citado. Uma marca pode ser onipresente no Claude e quase invisível no ChatGPT. Tratar visibilidade em IA como um número único é o erro mais comum que vejo em equipes de marketing brasileiras", diz ele no documento.

A vantagem do Nubank está crescendo em tempo real

O estudo capturou ainda um fenômeno raro: a concentração aumentando durante a própria coleta. O share do Nubank entre as menções de fintech subiu de cerca de 41% para 57% ao longo das sete semanas de medição. É a marca do que economistas chamam de vantagem cumulativa, ou efeito Mateus: quanto mais uma marca é citada, mais ela tende a ser citada nas respostas seguintes, concentrando ainda mais a atenção do modelo.

Esse detalhe muda a leitura competitiva. Não se trata de uma foto estática de quem está na frente, mas de um processo em andamento que tende a alargar a distância. A janela para uma marca disputar o posto de referência de uma categoria, sugere o autor, pode estar se fechando à medida que os modelos consolidam suas respostas-padrão.

Os números do estudo

Anchor-Entity Concentration in LLM Brand Citations · 23/abr a 9/jun de 2026 · 5 IAs · 4 verticais

62.820
observações analisadas
28,15%
citação da fintech no agregado (1º lugar)
11,46%
citação da fintech sem o Nubank (último lugar)
49,7%
das menções de fintech são do Nubank
4,13 → 0,77
odds ratio vs saúde se inverte ao remover a âncora
41% → 57%
share do Nubank cresceu durante a janela
2 de 5
motores colocam fintech acima do varejo
14,35 pp
queda do varejo sem Mercado Livre e Magazine Luiza

O que muda para a marca da sua empresa

Para o dono de pequena ou média empresa, a notícia tem uma tradução direta, e não é a que o marketing costuma vender. Aparecer nas respostas de IA não é uma loteria que você ganha por estar no setor "certo". É consequência de a sua marca se tornar a resposta canônica da categoria — o nome que o modelo emite por padrão quando o assunto é evocado. O setor é coadjuvante; a âncora é o ativo.

Isso reposiciona a estratégia. Em uma categoria já dominada por uma marca-âncora forte, disputar a citação genérica ("melhor banco", "melhor maquininha") é caro e, muitas vezes, perdido de antemão — o modelo já tem sua resposta-padrão e a reforça a cada interação. O espaço aberto está nas categorias fragmentadas, sem uma marca dominante consolidada, onde ainda há vácuo para ocupar o posto de referência. Para a maioria das PMEs, a oportunidade real é ser a âncora de um nicho específico e bem delimitado, não competir pela menção ampla de uma vertical inteira.

O segundo recado prático é de medição. Como o resultado varia fortemente de um motor para outro, não existe um número único de "visibilidade em IA". A marca que leva isso a sério mede a própria taxa de menção motor por motor — ChatGPT, Gemini, Claude, Perplexity — e trata cada um como um canal distinto, com táticas próprias. Forte desempenho em um deles não se traduz automaticamente nos demais.

O terceiro é de urgência. Se a concentração cresce com o tempo, como o caso Nubank demonstrou dentro da própria janela do estudo, esperar custa caro. A marca que ainda não é a referência de sua categoria nas IAs disputa contra um relógio que trabalha a favor de quem já está na frente.

Um recado para o próprio setor de GEO

O paper tem ainda um ângulo autocrítico, dirigido ao mercado de Generative Engine Optimization — a disciplina, em formação, de otimizar marcas para serem citadas por IAs. O estudo argumenta que rankings setoriais de citação, hoje comuns em relatórios de fornecedores, podem ser enganosos quando não passam pelo teste de remoção da âncora. Afirmar que "as IAs preferem o setor X" é, em muitos casos, medir uma empresa e chamá-la de setor.

É um convite ao rigor numa área jovem e barulhenta. O dataset completo do estudo foi publicado de forma aberta, com PDF livre, para que outros pesquisadores e profissionais possam reproduzir as contas e aplicar o mesmo teste a outras categorias e mercados.

Leia o paper completo e acesse o dataset. "Anchor-Entity Concentration in LLM Brand Citations" está disponível em PDF aberto, com dados públicos no GitHub para reprodução das análises.
Ler o paper (PDF) ↗ Ver o dataset ↗

Perguntas frequentes

O que é o efeito de entidade-âncora em citações de IA?

É o fenômeno em que a taxa de citação de uma vertical inteira nas respostas de IAs generativas é, na prática, puxada por uma única marca dominante. No caso da fintech brasileira, o Nubank concentra 49,7% das menções do setor. Quando se removem as respostas que citam apenas o Nubank, a taxa de citação da fintech despenca de 28,15% para 11,46% e o setor sai do primeiro para o último lugar entre as quatro verticais estudadas. A vantagem aparente da vertical é a sombra de uma firma, não uma propriedade do setor.

Quantas observações o estudo analisou e quais IAs foram testadas?

O working paper analisou 62.820 observações coletadas entre 23 de abril e 9 de junho de 2026, com cinco motores de IA generativa: ChatGPT, Claude, Gemini, Perplexity e Groq. Foram cobertas quatro verticais brasileiras: fintech, varejo, tecnologia e saúde. O dataset é público no GitHub e o PDF do paper é aberto.

A concentração em uma marca acontece só na fintech?

Não. Todas as verticais são dirigidas por marcas-âncora. O varejo cai 14,35 pontos percentuais na taxa de citação quando se removem Mercado Livre e Magazine Luiza juntos. A diferença entre os setores é o número de âncoras: a fintech é o caso extremo, dominada por uma única marca (o Nubank), enquanto o varejo tem duas marcas dividindo a liderança. A lição é que a taxa de citação de qualquer setor é dominada pelo seu núcleo de âncoras.

O resultado é o mesmo em todos os motores de IA?

Não. A heterogeneidade entre motores é um dos achados centrais. Apenas 2 dos 5 motores colocam a fintech acima do varejo; os outros três mostram o oposto. O motor de IA importa mais que o setor para definir quem é citado. Por isso, uma marca que quer ser citada precisa medir a própria visibilidade motor por motor — desempenho forte em um deles não se traduz nos demais.

O que isso significa para a marca da minha empresa aparecer nas respostas de IA?

Significa que ser citado por IA não é uma loteria setorial: depende de a sua marca se tornar a resposta canônica da categoria — o nome que o modelo emite por padrão quando o assunto é evocado. Para uma PME, a oportunidade está justamente nas categorias fragmentadas, sem uma marca dominante consolidada, onde ainda há espaço para se tornar a âncora. E como o resultado varia por motor, a marca precisa medir a própria taxa de menção em cada IA, e não tratar visibilidade em IA como um número único.

O share do Nubank está estável ou crescendo?

Está crescendo. Dentro da própria janela de medição do estudo, o share do Nubank entre as menções de fintech subiu de cerca de 41% para 57%. É um caso de vantagem cumulativa em andamento: quanto mais a marca é citada, mais ela tende a ser citada nas respostas seguintes, concentrando ainda mais a atenção do modelo.


Sobre o estudo. "Anchor-Entity Concentration in LLM Brand Citations" é um working paper de autoria de Alexandre Caramaschi, Chief Strategy Officer da Nuvini (Nasdaq: NVNI), Founder da Brasil GEO, cofundador da NAIA, cofundador da AI Brasil e ex-CMO da Semantix (Nasdaq). Versão completa em alexandrecaramaschi.com e brasilgeo.ai; dataset público em github.com/alexandrebrt14-sys/papers. Números referem-se à janela de coleta de 23/04 a 09/06/2026 e devem ser lidos como resultados interinos de um manuscrito em revisão.

Aviso editorial. Reportagem de curadoria editorial independente da Brasil GEO, baseada em working paper público de autoria de Alexandre Caramaschi. A menção a marcas (Nubank, Mercado Livre, Magazine Luiza e outras) é observacional e descreve o comportamento dos modelos de IA, não a conduta das empresas citadas. Não constitui aconselhamento de investimento.

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