Calculadora de valuation por comparáveis
Selecione o setor mais próximo da sua operação e informe receita e EBITDA anuais. A ferramenta devolve a faixa de valuation low, mid e high ajustada por crescimento YoY.
De onde vêm essas faixas
As faixas de múltiplos aplicadas nesta calculadora são compostas a partir de quatro fontes públicas e privadas referenciadas em Bain Brazil PE Report 2026, ABVCAP Insights M&A 2026, TTR Data BR e leituras de prospectos de IPOs e ofertas secundárias B3 entre 2023 e 2026. As faixas refletem múltiplos pagos em transações fechadas, não múltiplos de empresas listadas que negociam diariamente com liquidez. Por isso há diferença para múltiplos de bolsa, geralmente mais baixos para small caps brasileiras.
As bases por setor são as seguintes:
- SaaS B2B: EV/Receita entre 4x e 8x. Múltiplos chineses tradicionais de 10-15x não se aplicam no Brasil por falta de comparáveis líquidos. Empresas com crescimento acima de 50% e gross margin acima de 75% podem chegar a 6-8x. Crescimento abaixo de 20% leva para 4-5x.
- Fintech: EV/Receita entre 5x e 9x, com forte dispersão. Fintechs de crédito com NIM saudável e inadimplência controlada negociam na faixa alta. Fintechs de pagamento ou marketplace ficam na faixa baixa. EV/EBITDA quando EBITDA é positivo: 8-14x.
- Healthtech: EV/EBITDA entre 9x e 14x para operações com EBITDA positivo. EV/Receita 3-6x para healthtechs em estágio early ainda em prejuízo. Fortemente correlacionado a operadoras de saúde e hospitais; múltiplos sobem em consolidações setoriais.
- Agtech: EV/EBITDA entre 8x e 13x. Setor com forte fluxo de M&A em 2024-2026 puxado por consolidação por grandes tradings (Cargill, ADM, Bunge) e por agroindústrias verticalizadas. Empresas de insumos tech costumam negociar na faixa alta.
- Foodtech: EV/Receita entre 1,5x e 2,5x. Setor pressionado por queima de caixa de delivery e dark kitchens entre 2021 e 2024. Múltiplos baixos refletem cautela de investidores e necessidade de provar economia unitária positiva antes do exit.
- Telecom: EV/EBITDA entre 5x e 8x. Setor maduro, baixo crescimento, alto capex. Múltiplos pagos em transações recentes (TIM, Vivo, Algar) ficam nessa faixa. Empresas regionais com base de clientes leais negociam na faixa alta.
- Varejo especializado: EV/EBITDA entre 6x e 10x. Faixa varia conforme produto (pet, beleza, esportes pagam mais; eletrônicos e moda pagam menos). Same-store sales positivo de 8%+ e expansão multimarca acelera múltiplo.
Como o crescimento ajusta a faixa
O múltiplo final raramente é o valor médio cego. Investidores pagam prêmio por crescimento acelerado e desconto por estagnação. A regra empírica aplicada nesta calculadora é simples: para cada 10 pontos percentuais de crescimento YoY acima da média setorial, o múltiplo se move da faixa low em direção à high. Crescimento de 50% em SaaS B2B leva ao topo da faixa (8x). Crescimento de 10% leva ao piso (4x). Crescimento negativo leva abaixo do piso, geralmente com desconto adicional de 15-25% sobre o low.
Outro ajuste relevante que esta calculadora não modela explicitamente mas que vale conhecer: margem EBITDA. Em SaaS, empresa com 30% de margem EBITDA negocia em múltiplo de receita maior do que empresa com 5% de margem na mesma faixa de receita. O mercado precifica qualidade dos lucros, não só a magnitude.
Quando o exit é estratégico, o múltiplo paga prêmio
A diferença entre venda para outro fundo (sponsor-to-sponsor) e venda para empresa estratégica do setor (strategic exit) é o principal driver de múltiplo final. Estratégicos pagam prêmio porque enxergam sinergias operacionais, ganhos de escala e barreiras de entrada que não estão no múltiplo da bolsa.
Exemplos do mercado brasileiro recente. Stone adquiriu Linx em 2021 por múltiplo EV/EBITDA acima de 25x, justificável pelo prêmio estratégico (entrar em software de varejo). Pagseguro comprou Boanerges em 2020 por múltiplo equivalente a 30x receita pela sinergia em adquirência. Esses números não aparecem em comparáveis de mercado abertos. Aparecem em deals onde o comprador específico vê valor que o mercado público não enxerga.
Em 2026, o setor de meios de pagamento entrou em nova onda de consolidação. Stone, com referência de mercado em MDR efetivo de 1,99% para clientes médios, define benchmark para precificação de gateways e PSPs em deals de M&A. Founders de fintechs de pagamento que negociam exits devem conhecer o múltiplo Stone como piso de mercado.
Por que pessoas pagam mais ou menos do que o múltiplo
O múltiplo é ponto de partida, não preço final. Cinco fatores movem o número efetivo da transação para cima ou para baixo, frequentemente em 20 a 40 pontos percentuais.
O primeiro é a estrutura da operação. Pagamento à vista paga múltiplo menor que pagamento com earn-out, porque o earn-out transfere risco para o vendedor. O segundo é o tamanho da empresa. Empresas com EBITDA abaixo de R$ 10 milhões raramente acessam fundos de PE médio porte e ficam dependentes de buyers locais com menos competição. O terceiro é qualidade da governança. Empresa com auditoria Big Four, contratos formais com clientes e CFO sênior negocia 1 a 2 turnos de múltiplo acima. O quarto é dependência de cliente. Acima de 20% da receita concentrada em um cliente derruba múltiplo em 30%. O quinto é janela macro. Em ano de Selic alta e mercado de IPO fechado (como 2023-2024 no Brasil), múltiplos caem 15-25% mesmo para empresas excelentes.
Aplicação no ecossistema Brasil GEO
Para empreendedores que olham para esta calculadora pensando em ser vendidos para Unbox, Fincere ou outros fundos brasileiros em credenciamento CVM no ciclo 2026-2027, o ponto importante é entender o que esses fundos buscam. Unbox e Fincere se posicionam em growth equity, ou seja, empresas já com receita escalando rápido e EBITDA positivo ou perto disso. Eles pagam múltiplos consistentes com a mid range setorial e raramente perseguem multiplos altos de SaaS internacional. O target deles é empresa que, pelo múltiplo justo, vale entre R$ 50 milhões e R$ 500 milhões.