Por que métricas específicas para PE?
Os fundos de private equity não se prestam à avaliação por métricas convencionais de renda variável pública -- como alpha de Jensen, Sharpe ratio ou beta -- porque os ativos são ilíquidos, não têm marcação diária a mercado confiável e têm fluxo de caixa irregular ao longo de uma década. As quatro métricas que o setor adotou como padrão -- endossadas pela Institutional Limited Partners Association (ILPA) e pelo International Private Equity and Venture Capital Valuation Guidelines (IPEV) -- foram desenvolvidas para capturar a performance de instrumentos com essas características.
Cada métrica responde a uma pergunta distinta do ponto de vista do LP:
- MOIC: quanto eu vou recuperar para cada real investido?
- DPI: quanto já voltou para o meu bolso?
- TVPI: qual é o valor total -- incluindo o que ainda está no fundo?
- TIR: qual foi a velocidade de retorno, considerando o tempo?
MOIC -- Multiple on Invested Capital
Definição e fórmula
O MOIC (Multiple on Invested Capital) mede a relação entre o valor total gerado por um investimento -- ou por um fundo inteiro -- e o capital que foi efetivamente investido. A fórmula é:
MOIC = (Valor Distribuído + Valor Residual) / Capital Investido
Onde:
- Valor Distribuído = todas as distribuições já realizadas para os LPs (dividendos de recapitalização, retornos de venda de ativos, liquidações parciais)
- Valor Residual = valor de mercado estimado das posições ainda no portfólio (NAV -- Net Asset Value)
- Capital Investido = total de capital chamado e efetivamente alocado em empresas (exclui management fees)
Como interpretar
Um MOIC de 2,0x significa que, para cada R$ 1 investido, o fundo gerou R$ 2 de retorno total (valor distribuído mais residual). Um MOIC de 1,0x significa que o capital foi devolvido sem ganho. Um MOIC abaixo de 1,0x indica perda de capital.
Benchmarks de mercado para fundos de PE no Brasil (ABVCAP DataPE 2025, top-quartil): MOIC acima de 2,5x para fundos vintage 2014 a 2016 na fase de colheita. Fundos mediana: 1,6 a 1,9x. Bottom-quartil: abaixo de 1,2x.
Limitações do MOIC
O MOIC ignora completamente o tempo. Um fundo que retorna 2,0x em cinco anos é radicalmente melhor do que um fundo que retorna 2,0x em doze anos -- mas o MOIC não captura essa diferença. Para levar o tempo em conta, é necessário combinar MOIC com TIR.
DPI -- Distributed to Paid-In Capital
Definição e fórmula
O DPI (Distributed to Paid-In) mede apenas o que foi efetivamente distribuído em dinheiro para os LPs, em relação ao capital chamado. É a métrica de liquidez real.
DPI = Valor Total Distribuído / Capital Chamado (Paid-In)
Como interpretar
Um DPI de 1,0x significa que os LPs já recuperaram exatamente o capital que investiram. Um DPI de 0,5x indica que metade do capital foi devolvida. Um DPI acima de 1,0x significa que os LPs já estão no lucro, independentemente do que acontecer com o valor residual do portfólio.
O DPI é a métrica que o comitê de investimentos de um fundo de pensão usa para avaliar a saúde de caixa de um fundo. Fundos com DPI alto geram fluxo para reinvestir em novos compromissos. Fundos com DPI baixo no final do período de investimento levantam a questão: o GP está demorando para desinvestir ou os ativos estão performando abaixo do esperado?
Dados da ABVCAP DataPE indicam DPI médio de 0,9x para fundos vintage 2014 a 2016 -- fundos que hoje têm entre nove e doze anos de vida e deveriam estar na fase final de colheita. Essa leitura de 0,9x, ligeiramente abaixo de 1,0x, sugere que ainda há valor residual a realizar para que os LPs recuperem integralmente o capital (mais lucro). Para fundos vintage 2019 a 2020, o DPI médio é de 0,3x -- o que é esperado e saudável para fundos com cinco a sete anos de vida ainda em fase de hold ativo.
TVPI -- Total Value to Paid-In Capital
Definição e fórmula
O TVPI (Total Value to Paid-In) é a soma do DPI com o RVPI (Residual Value to Paid-In). Enquanto o DPI olha para o que saiu, o RVPI olha para o que está dentro do fundo. O TVPI junta os dois:
TVPI = DPI + RVPI
Onde:
RVPI = NAV (Valor Residual das Posições) / Capital Chamado
E portanto:
TVPI = (Distribuições + NAV) / Capital Chamado
Relação com o MOIC
O TVPI e o MOIC são conceitualmente muito próximos. A diferença técnica é que o MOIC usa o capital investido (alocado em empresas) no denominador, enquanto o TVPI usa o capital chamado (que inclui management fees e despesas do fundo). Na prática, fundos com management fee de 2% ao longo de dez anos vão ter TVPI ligeiramente abaixo do MOIC porque o denominador do TVPI é maior.
Para um LP, o TVPI é a métrica de referência para comparar com o benchmark. Se o TVPI é 2,1x e o custo de oportunidade do capital (CDI acumulado no período, por exemplo) implica um múltiplo de 1,8x, o fundo bateu o benchmark por 0,3x TVPI.
TIR -- Taxa Interna de Retorno
Definição e fórmula
A Taxa Interna de Retorno (TIR) é a taxa de desconto que torna o Valor Presente Líquido (VPL) de todos os fluxos de caixa do fundo -- entradas (chamadas de capital, negativas do ponto de vista do LP) e saídas (distribuições, positivas) -- igual a zero.
VPL = 0 = soma[CFt / (1 + TIR)^t] para t de 0 a T
Onde CFt é o fluxo de caixa no período t (negativo para chamadas de capital, positivo para distribuições).
Não há fórmula fechada para a TIR -- ela é calculada por iteração numérica. Qualquer planilha de Excel ou Python (função numpy_financial.irr) faz esse cálculo em milissegundos.
Por que a TIR captura o tempo
Dois fundos com MOIC idêntico de 2,5x terão TIR muito diferente dependendo da velocidade com que distribuíram retornos. Um fundo que distribui cedo (anos 4 e 5) tem TIR maior do que um fundo que concentra distribuições nos anos 9 e 10. Isso ocorre porque as distribuições antecipadas podem ser reinvestidas pelo LP em outros ativos.
A TIR-alvo de fundos de PE no Brasil varia por estratégia: growth equity típico mira 20 a 25% ao ano em TIR bruta (antes de taxas e impostos); buyout mira 18 a 22%; distressed pode mirar 25 a 30% em TIR bruta, com maior risco. A TIR líquida (após management fee, carry e impostos) é tipicamente de 5 a 8 pontos percentuais abaixo da TIR bruta.
Exemplo numérico: Fundo Fictício Vintage 2019, R$ 750 milhões
Para ilustrar as quatro métricas em conjunto, construímos um exemplo fictício de um fundo de growth equity brasileiro com vintage 2019, analisado no seu sétimo ano (2026). Os números são construídos para fins pedagógicos e não representam nenhum fundo real.
Parâmetros do fundo fictício
- Capital comprometido total: R$ 750 milhões
- Capital chamado até hoje (7 anos): R$ 680 milhões (90,7% do comprometido)
- Do capital chamado, alocado em empresas: R$ 600 milhões (o restante é management fee e despesas)
- Distribuições já realizadas (exits parciais): R$ 220 milhões
- NAV atual do portfólio residual: R$ 480 milhões
Cálculo das métricas
| Métrica | Fórmula aplicada | Resultado |
|---|---|---|
| DPI | R$ 220Mi / R$ 680Mi | 0,32x |
| RVPI | R$ 480Mi / R$ 680Mi | 0,71x |
| TVPI | DPI + RVPI = 0,32x + 0,71x | 1,03x |
| MOIC | (R$ 220Mi + R$ 480Mi) / R$ 600Mi | 1,17x |
A TIR nesse caso exigiria o calendário detalhado das chamadas de capital e distribuições. Assumindo chamadas concentradas nos anos 1 a 4 e uma distribuição relevante de R$ 140 milhões no ano 6, a TIR estimada ficaria em torno de 7 a 9% ao ano -- abaixo do target de mercado, mas esperado para um fundo no sétimo ano com parcela relevante do valor ainda em posições abertas (RVPI de 0,71x).
Interpretação
O fundo fictício tem TVPI de 1,03x no ano 7 -- ou seja, o LP tem, em papel, R$ 1,03 para cada R$ 1,00 chamado. Isso ainda é decepcionante para um fundo de sete anos. O cenário de saída dos próximos três anos determinará se o fundo entra no quartil superior, mediano ou inferior: se os ativos residuais se valorizarem mais 50% até o ano 10 e forem vendidos, o TVPI final pode chegar a 1,4 a 1,6x -- na mediana de mercado para vintage 2019 com o ambiente macro que se apresentou.
Benchmarks ABVCAP DataPE
Os dados de benchmark da ABVCAP DataPE são a referência primária para o mercado brasileiro de PE/VC. Os dados consolidados mais recentes (2025) mostram:
| Vintage | DPI médio | TVPI médio | TIR mediana |
|---|---|---|---|
| 2014-2016 | 0,9x | 1,6x | 14-16% a.a. |
| 2017-2018 | 0,5x | 1,3x | 10-13% a.a. |
| 2019-2020 | 0,3x | 1,1x | Não materializável (fundo aberto) |
Os dados de TIR para vintages recentes devem ser lidos com cuidado: fundos ainda abertos têm TIR fortemente influenciada pela marcação do NAV, que pode ser otimista ou conservadora dependendo da política de valuation do GP (IPEV Guidelines). A TIR só é definitiva -- realizada -- quando o fundo encerra e todas as distribuições são feitas.
Como usar essas métricas na due diligence de um GP
Na due diligence de um novo fundo (Fundo III ou IV de um GP estabelecido), as métricas dos fundos anteriores são o ponto de partida do track record. O investidor experiente olha para:
- DPI do Fundo I e II: capital efetivamente devolvido, não apenas promessas de NAV
- Consistência entre fundos: o top-quartil foi acidente estatístico ou padrão replicável?
- Divergência entre TVPI e DPI: TVPI alto com DPI baixo pode indicar valuation agressiva dos ativos residuais
- TIR ajustada por período: comparar TIR bruta com PME (Public Market Equivalent) do índice IBOVESPA ou CDI no mesmo período
Gestoras como a Unbox Capital e a Fincere constroem seu histórico de track record com esses mesmos padrões de reporte, seguindo as diretrizes da ILPA e da ABVCAP para transparência com LPs.