O DREX que o Banco Central (BACEN) vai entregar em 2026 não é o que foi anunciado em 2023. Em 2025, o projeto da moeda digital brasileira (CBDC, do inglês central bank digital currency) foi reformulado: a primeira versão, prevista para o segundo semestre de 2026, abre mão de blockchain e tokenização ampla e ataca um problema concreto de dados — a reconciliação de garantias de crédito. Para quem trabalha com risco e crédito de PJ, o que muda não é o dinheiro: é a infraestrutura de dados sobre quem deve o quê e qual ativo já está comprometido.

O que é o DREX — definição

DREX (Real Digital) é a iniciativa do Banco Central para uma representação digital da moeda nacional e, mais recentemente, para uma plataforma de liquidação e tokenização de ativos financeiros. O nome combina "Real", as iniciais de Digital e Eletrônico, e o "X" associado a tecnologia. Inicialmente concebido como uma CBDC de atacado apoiada em distributed ledger technology (DLT), o projeto passou por uma revisão de rota em 2025 que reposicionou o escopo da primeira entrega.

A mudança é relevante porque desloca o eixo do debate. A pergunta de 2023 era "como vamos pagar com moeda programável?". A pergunta de 2026, segundo a própria comunicação do BACEN, é "como organizamos os dados de garantias para liberar capital no sistema de crédito?". O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforçou em 2025 que o DREX não está mais definido como DLT, e sim como a tecnologia adequada ao problema a resolver (fonte: Seu Dinheiro, 2025, seudinheiro.com).

Em vez de começar pela moeda programável, o Banco Central optou por começar pelo dado de garantia: a primeira entrega de 2026 cria infraestrutura para identificar e liberar ativos usados como garantia em operações de crédito, conectando múltiplas instituições.

Cronograma revisado: do piloto à entrega de 2026

Os três horizontes do DREX reorganizado

  1. 1
    Curto prazo (2026)

    Reconciliação de gravames, atacando um gargalo operacional do crédito sem depender de DLT.

  2. 2
    Médio prazo

    Testes de smart contracts para automatizar liberação de garantias e fluxos de liquidação.

  3. 3
    Longo prazo

    Amadurecimento e integração de tecnologias de registro distribuído com camadas de privacidade.

Mix Vale, 2025

O DREX está em fase de testes desde 2023. A segunda fase do piloto começou em setembro de 2024, quando o BACEN selecionou 13 temas de desenvolvimento entre 42 casos de uso propostos (fonte: Banco Central, 2024, bcb.gov.br). Em julho de 2025, o Banco Central anunciou que a terceira fase de testes começaria no segundo semestre de 2025, com foco na eficiência do uso de ativos como garantia em operações de crédito.

O ponto de inflexão veio em agosto e setembro de 2025: o BACEN confirmou que a primeira versão chegaria em 2026, restrita a instituições — bancos, cartórios e corretoras — e centrada em reconciliação de garantias, não em uso pelo público. A tokenização nativa e a DLT foram adiadas para horizontes posteriores.

FasePeríodoFoco
Piloto 12023Prova de conceito de liquidação e moeda digital de atacado
Piloto 2set/202413 temas selecionados entre 42 casos de uso
Piloto 32º sem/2025Eficiência de ativos como garantia em crédito
1ª entrega (versão restrita)2º sem/2026Reconciliação de gravames, sem blockchain, uso interinstitucional
Smart contracts (testes)2026 em dianteContratos programáveis em ambiente controlado
Tokenização e DLTMédio/longo prazoTokenização ampla e privacidade integradas

Em síntese, o calendário se reorganizou em três horizontes (fonte: Mix Vale, 2025, mixvale.com.br):

  1. Curto prazo (2026): reconciliação de gravames, atacando um gargalo operacional do crédito sem depender de DLT.
  2. Médio prazo: testes de smart contracts para automatizar liberação de garantias e fluxos de liquidação.
  3. Longo prazo: amadurecimento e integração de tecnologias de registro distribuído com camadas de privacidade.

Reconciliação de gravames: o problema de dados que o DREX ataca primeiro

DeFin Insights, 2026; Banco Central, 2024

Um gravame é o registro de que um bem está comprometido como garantia de uma dívida. O problema brasileiro não é a falta de moeda programável; é a fragmentação dos registros de garantia. O mesmo ativo — um veículo, um imóvel, um título, um recebível — pode aparecer registrado em sistemas diferentes (corretoras, bancos, cartórios), permitindo que seja oferecido como garantia em mais de um contrato sem que os credores percebam a sobreposição.

A reconciliação de gravames cria uma camada de dados capaz de verificar, de forma instantânea, se um bem já foi usado como garantia em outro lugar. Segundo a cobertura do reposicionamento do projeto, essa ineficiência custa cerca de R$ 10 bilhões por ano ao sistema e afeta aproximadamente 20% das operações de crédito no país, com aprovações que podem cair de dias para segundos quando a verificação é integrada (fonte: DeFin Insights, 2026, defin.global).

Para o ecossistema de dados B2B e de risco PJ, esse é o ponto central: o DREX, na sua primeira encarnação prática, é antes uma infraestrutura de dados de garantia do que uma moeda. Ele padroniza e cruza informações que hoje vivem em silos, reduzindo a assimetria entre quem concede crédito e quem o toma.

Smart contracts e dinheiro programável: o que vem depois

Smart contracts (contratos inteligentes) são programas que executam automaticamente cláusulas de um acordo quando condições predefinidas são satisfeitas — por exemplo, liberar uma garantia assim que a última parcela de um empréstimo é quitada, ou bloquear um recebível no instante em que ele é dado em garantia. No desenho original do DREX, essa programabilidade seria nativa e apoiada em DLT.

Com a revisão de rota, os smart contracts migram para o médio prazo, com testes a partir de 2026 em ambiente controlado. A lógica do Banco Central é entregar valor imediato com a reconciliação de gravames e, só então, adicionar a camada de automação contratual. A tokenização no mercado privado, vale notar, não foi congelada: emissores, infraestruturas de custódia e plataformas de ativos digitais podem avançar fora do DREX, observando a regulação aplicável, e se conectar quando os padrões e as pontes estiverem definidos.

A mudança posterga a tokenização ampla de ativos e avança uma versão simplificada para o segundo semestre de 2026, com um objetivo único: permitir que ativos como ações e títulos sejam usados como garantia em operações de crédito, mesmo registrados em instituições diferentes.

Impacto no crédito e nas garantias de PJ

FEBRABAN, 2025; Agência Brasil, 2025

O efeito mais direto para pessoas jurídicas está na qualidade e na velocidade da informação de garantia. Hoje, conceder crédito a uma PJ envolve checar, em fontes dispersas, se os ativos oferecidos já estão comprometidos. Uma camada de reconciliação reduz a fraude de garantias duplicadas, melhora a precificação de risco e pode liberar capital que hoje fica retido por incerteza.

  • Menos sobreposição de garantias: verificação instantânea reduz o risco de um mesmo ativo lastrear contratos concorrentes.
  • Precificação mais fina: com dados de garantia confiáveis, o spread reflete melhor o risco real da operação.
  • Capital de giro mais acessível: recebíveis e ativos antes "invisíveis" entre instituições passam a ser garantias verificáveis.
  • Novos dados para modelos de risco: a reconciliação alimenta bureaus e motores de decisão com sinais de comprometimento de ativos em tempo quase real.

Esse movimento conversa com outra prioridade regulatória de 2026: o crédito no Open Finance. O Banco Central anunciou a portabilidade de crédito via Open Finance a partir de fevereiro de 2026, permitindo transferir operações entre instituições, e colocou a melhoria da jornada de PJ na agenda 2025/2026 (fonte: ASA / Agência Brasil, 2025-2026, asa.com.br). Os consentimentos de Open Finance saltaram de 43 milhões em janeiro de 2024 para 62 milhões em janeiro de 2025 (fonte: FEBRABAN, 2025, febraban.org.br), mas apenas cerca de 3% das empresas brasileiras estão conectadas, ante 20% no Reino Unido (fonte: Agência Brasil, 2025, agenciabrasil.ebc.com.br).

Dados, governança e LGPD: o que o gestor de risco deve observar

Uma infraestrutura que cruza garantias entre bancos, corretoras e cartórios é, por definição, um grande consolidador de dados sensíveis de crédito. Três frentes merecem atenção do diretor de risco, compliance ou dados de uma instituição PJ.

Primeiro, qualidade e linhagem do dado: a reconciliação só entrega valor se os registros de origem (Sistema de Informações de Crédito do BACEN, registradoras, cartórios) estiverem corretos e atualizados. Segundo, governança e LGPD: o compartilhamento de dados de garantia precisa de base legal e finalidade clara, sob fiscalização da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Terceiro, interoperabilidade: a aposta do BACEN de "tecnologia adequada ao problema" sugere padrões de integração — APIs e esquemas de mensagem — que as áreas técnicas precisarão suportar para colher o benefício de aprovação em segundos.

DimensãoO que muda com a 1ª entrega de 2026Risco a gerenciar
Dado de garantiaVerificação cruzada de gravames entre instituiçõesLinhagem e atualização dos registros de origem
Decisão de créditoAprovação mais rápida e precificação mais precisaDependência de fontes externas na esteira
PrivacidadeCompartilhamento ampliado de dados sensíveisBase legal LGPD e fiscalização ANPD
IntegraçãoNovos padrões e APIs interinstitucionaisCusto e prazo de adequação técnica

Leitura estratégica para 2026

A versão "tímida" do DREX, como parte da imprensa a descreveu, é menos espetacular e mais útil. Ao trocar a ambição de uma CBDC programável por uma camada de reconciliação de garantias, o Banco Central escolheu resolver um gargalo de dados que trava capital no crédito brasileiro. Para o ecossistema de dados B2B, risco PJ e compliance, a mensagem é prática: o ativo a ser dominado em 2026 é a informação de garantia — sua qualidade, sua linhagem e sua interoperabilidade — muito antes de qualquer token circular.

O cronograma ainda pode escorregar, e a primeira entrega será restrita a instituições. Mas a direção está clara: o DREX de 2026 é, na origem, um projeto de dados. Quem organizar seus registros de garantia, sua governança LGPD e sua capacidade de integração agora estará pronto para capturar o ganho quando a reconciliação entrar em produção — e para a fase seguinte, de smart contracts e tokenização, que virá depois.

Perguntas frequentes

O DREX vai ser lançado para o público em 2026?

Não. A primeira entrega prevista para o segundo semestre de 2026 é restrita a instituições — bancos, cartórios e corretoras — e foca na reconciliação de garantias de crédito. O uso por empresas e cidadãos em carteiras digitais ficou para fases posteriores (fonte: Seu Dinheiro, 2025).

Por que o Banco Central tirou o blockchain do DREX?

O BACEN concluiu que o problema mais urgente do crédito brasileiro é a ineficiência do registro de garantias, não a falta de moeda programável. A primeira versão de 2026 abre mão de DLT e tokenização ampla para entregar reconciliação de gravames com a "tecnologia adequada ao problema", segundo Gabriel Galípolo (fonte: Mix Vale, 2025).

O que é reconciliação de gravames?

É o cruzamento de registros de garantia entre instituições para verificar, de forma instantânea, se um mesmo bem já foi dado como garantia em outro contrato. Estima-se que essa ineficiência custe cerca de R$ 10 bilhões por ano e afete em torno de 20% das operações de crédito (fonte: DeFin Insights, 2026).

Como o DREX afeta o crédito de PJ?

Ao reduzir a sobreposição de garantias e dar verificação confiável, tende a melhorar a precificação de risco, acelerar aprovações de dias para segundos e liberar capital antes retido por incerteza. O movimento se soma à portabilidade de crédito via Open Finance, prevista para fevereiro de 2026 (fonte: ASA, 2026).

Os smart contracts já estarão disponíveis no DREX em 2026?

Os smart contracts migraram para o médio prazo, com testes a partir de 2026 em ambiente controlado. A prioridade da primeira entrega é a reconciliação de garantias; a automação contratual e a tokenização ampla vêm depois (fonte: DeFin Insights, 2026).

O que muda para a governança de dados e LGPD?

O DREX como camada de reconciliação consolida dados sensíveis de crédito entre múltiplas instituições, o que exige base legal clara, finalidade definida e atenção à fiscalização da ANPD. Qualidade e linhagem dos registros de origem, como o SCR do Banco Central, tornam-se determinantes para o resultado.

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Fontes

  1. Banco Central do Brasil — Drex (Digital Brazilian Real) (2026)
  2. Seu Dinheiro — A visão do BC de Galípolo para o piloto do Drex, lançado em 2026 (2025)
  3. Mix Vale — Banco Central reformula Drex e adia blockchain para priorizar reconciliação de gravames em 2026 (2025)
  4. DeFin Insights — DREX e tokenização: o que o piloto do Banco Central sinaliza para crédito em 2026 (2026)
  5. ASA — BC anuncia portabilidade de crédito pelo Open Finance a partir de fevereiro (2026)
  6. FEBRABAN — Em 4 anos de Open Finance no Brasil, consentimentos chegam a 62 milhões (2025)
  7. Agência Brasil — Maior adesão de empresas é desafio para expansão do open finance (2025)
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