A construção civil concentra três fatores que elevam o risco de pessoa jurídica (PJ) acima da média: ciclos longos de capital intensivo, cadeias de fornecedores fragmentadas e fluxo financeiro que historicamente atrai a lavagem de dinheiro. Em 2026, com crescimento projetado pela CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) em torno de 2% e expansão do crédito imobiliário, o volume de novas relações comerciais cresce — e com ele a exposição a obra-fachada, empresa de papel e fornecedores sem lastro. O KYB (Know Your Business) deixou de ser etapa cartorial para virar controle de risco contínuo.

O setor em 2026: mais crédito, mais contrapartes, mais risco

CBIC, 2026

CBIC, 2026

O ciclo construtivo voltou a acelerar. A CBIC projeta crescimento de aproximadamente 2% para a construção em 2026, acima do PIB nacional estimado em 1,6%, sustentado pelo início do corte de juros, pelo programa habitacional e por orçamento recorde de financiamento via FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) (fonte: CBIC, 2026, cbic.org.br).

No crédito habitacional, o primeiro trimestre de 2026 já mostrou aceleração: operações do FGTS somaram R$ 32,5 bilhões, alta de 21,6% sobre o mesmo período de 2025, financiando 142,4 mil unidades; o SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo) alcançou R$ 42,3 bilhões, crescimento de 11,9%, com 125,4 mil unidades (fonte: CBIC, 2026, cbicdados.com.br). Mais crédito significa mais contrapartes: incorporadoras contratando empreiteiras, empreiteiras subcontratando, fornecedores de insumos entrando em obras com prazos de pagamento longos. Cada novo CNPJ na cadeia é uma decisão de risco.

Em uma cadeia construtiva, o risco não termina no fornecedor direto. Fornecedores de segundo nível — quem fornece para quem você contrata — concentram a maior parte da exposição a corrupção, sanções e ESG não monitorada.

O que é KYB — definição

KYB (Know Your Business) é o processo de conhecer e verificar uma pessoa jurídica antes e durante qualquer relação comercial: validar quem está por trás do CNPJ, qual a atividade econômica real, qual o quadro societário e o beneficiário final, e se há risco de fraude, lavagem de dinheiro ou presença em listas de sanções e inidôneos. É o equivalente corporativo do KYC (Know Your Customer) aplicado a pessoas físicas, porém com camadas adicionais de complexidade societária (fonte: Stripe, 2026, stripe.com).

No Brasil, o KYB conecta-se diretamente ao arcabouço de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. A Lei nº 9.613/1998 determina que instituições reguladas adotem medidas para identificar e monitorar não só clientes, mas também parceiros de negócio quando houver risco de uso da relação para fins ilícitos, com BACEN (Banco Central do Brasil) e CVM (Comissão de Valores Mobiliários) reforçando a obrigação em suas normas. A densidade documental brasileira — CNPJ, QSA (Quadro de Sócios e Administradores) da Receita Federal, cadastro de beneficiário final, CEIS (Cadastro de Empresas Inidôneas e Suspensas) — permite um KYB robusto quando os dados são cruzados de forma estruturada.

Por que a construção civil é vertical de risco elevado

A construção figura recorrentemente entre os setores de maior exposição em diligência de terceiros, ao lado de agronegócio e confecção, por características estruturais: subcontratação em cascata, alta rotatividade de pequenas empreiteiras, pagamentos por etapa de obra e histórico de uso do setor como veículo de lavagem via superfaturamento e empresas de papel. A automação de due diligence reduz o tempo de análise em até 83% — de 90 para cerca de 15 dias — justamente em setores de cadeia complexa como a construção civil (fonte: DirectD, 2026, directd.com.br).

As três ameaças cadastrais do setor

Três figuras de risco PJ aparecem com frequência desproporcional na construção civil. Reconhecê-las é o primeiro passo do KYB.

Empresa de papel

É um CNPJ que existe formalmente — tem endereço, recolhe alguns tributos — mas não presta o serviço que declara. Funciona como filtro de recursos: a empresa de papel emite notas, recebe pagamentos e repassa o dinheiro a destino ilícito, sem capacidade operacional compatível. Em 2026, com a digitalização total das notas fiscais e o cruzamento de dados pela Receita Federal, manter uma empresa de papel ficou mais difícil, mas não impossível (fonte: Ribeiro Cavalcante Advocacia, 2026, ribeirocavalcante.com.br).

Obra-fachada

Obra-fachada é o empreendimento ou contrato de construção cujo propósito real não é entregar a edificação, e sim justificar a movimentação de recursos. O imóvel — setor historicamente usado em lavagem tradicional — permite injetar dinheiro de origem incompatível com a capacidade econômica declarada, mascarado como custo de obra. Indícios incluem origem de recursos incompatível, estruturas societárias desnecessariamente complexas e comportamento atípico do contratante, exatamente os sinais que as normas do COAF para o setor imobiliário mandam vigiar.

Empreiteira-fantasma e subcontratação cega

A subcontratação em cascata é o ponto cego clássico. A incorporadora diligencia a construtora principal, mas não enxerga quem ela subcontrata. Empreiteiras criadas recentemente, sem histórico, sem quadro técnico e com sócios laranjas entram na obra por baixo do contrato principal. Sem KYB do segundo nível, o risco trafega na cadeia sem ser visto.

KYB de incorporadoras e empreiteiras: o que verificar

Um programa de KYB para o setor combina dados cadastrais, societários, jurídicos e operacionais. A tabela a seguir resume os eixos de verificação por figura de risco.

Eixo de verificaçãoFonte primáriaSinal de alerta
Existência e atividade realCNPJ / Receita FederalCNAE incompatível com a obra; abertura recente; sede em endereço virtual
Quadro societário e beneficiário finalQSA / cadastro de beneficiário finalSócios laranjas; estrutura em camadas sem propósito; mesmo endereço de outras PJ de papel
Idoneidade e sançõesCEIS / CNEP / listas COAFEmpresa inidônea, suspensa ou em lista de sanções
Saúde jurídica e fiscalProcessos judiciais; certidõesExecuções trabalhistas, fiscais e ambientais em série
Capacidade operacionalVínculos trabalhistas; histórico de obrasFaturamento declarado sem funcionários ou equipamentos
Segregação patrimonialRegistro de incorporação / patrimônio de afetaçãoEmpreendimento sem afetação patrimonial registrada

O patrimônio de afetação merece destaque no KYB de incorporadoras. Trata-se de regime que isola financeira e contabilmente um empreendimento específico, que passa a ter CNPJ e contabilidade próprios, servindo de garantia para a conclusão da obra mesmo em cenário de insolvência ou falência da incorporadora — caso em que os adquirentes podem contratar outra empresa para terminar a construção (fonte: IRIB, 2026, irib.org.br). Verificar a existência do patrimônio de afetação é, simultaneamente, controle de risco de crédito e indício de seriedade da contraparte.

Due diligence de fornecedores: do checklist pontual ao ciclo contínuo

Due diligence de fornecedor como ciclo contínuo

  1. 1
    Triagem cadastral

    Validar CNPJ ativo, CNAE compatível, tempo de existência e endereço real antes de qualquer proposta.

  2. 2
    Beneficiário final

    Cruzar QSA e cadastro de beneficiário final para revelar quem de fato controla o fornecedor.

  3. 3
    Idoneidade e sanções

    Consultar CEIS, CNEP e listas do COAF; um fornecedor inidôneo contamina a obra e a reputação.

  4. 4
    Capacidade operacional

    Confrontar faturamento declarado com vínculos trabalhistas e histórico de obras.

  5. 5
    Monitoramento e 2º nível

    Reavaliar processos, fisco e listas em ciclos periódicos e estender o KYB à cascata de subcontratação.

Protiviti / Netrin, 2026

A falha mais comum no setor é tratar a verificação de fornecedores como etapa única, no momento da contratação. Abordagens maduras operam como ciclo contínuo de avaliação, monitoramento e reavaliação de risco, integrando critérios regulatórios, operacionais e ESG ao longo de todo o ciclo de vida do fornecedor (fonte: Protiviti, 2026, protiviti.com.br). A base legal é objetiva: a Lei Anticorrupção (Lei nº 12.846/2013) responsabiliza a empresa por atos de terceiros em seu nome, independentemente de culpa.

  1. Triagem cadastral inicial. Validar CNPJ ativo, CNAE compatível com o serviço, tempo de existência e endereço real antes de qualquer pedido de proposta.
  2. Identificação do beneficiário final. Cruzar QSA e cadastro de beneficiário final para revelar quem de fato controla o fornecedor, detectando sócios laranjas e estruturas em camadas.
  3. Checagem de idoneidade e sanções. Consultar CEIS, CNEP e listas do COAF; um fornecedor inidôneo contamina a obra e a reputação do contratante.
  4. Avaliação de capacidade operacional. Confrontar faturamento declarado com vínculos trabalhistas e histórico de obras — faturamento alto sem funcionários é sinal clássico de empresa de papel.
  5. Monitoramento contínuo. Reavaliar processos judiciais, situação fiscal e listas restritivas em ciclos periódicos, não só na contratação.
  6. Diligência de segundo nível. Exigir contratualmente que a construtora principal diligencie seus subcontratados, estendendo o KYB à cascata de subcontratação.

A integração com bases como CEIS, atualização automática de processos judiciais e checagem de beneficiário final são elementos fundamentais de um programa moderno — e pequenas e médias empresas serão fortemente impactadas, pois grandes contratantes passarão a exigir certificações, documentos e políticas formais como condição de contrato (fonte: Netrin, 2026, netrin.com.br).

Deveres de PLD: o que o COAF exige do setor imobiliário

O setor imobiliário é regulado para fins de PLD (Prevenção à Lavagem de Dinheiro). Construtoras, incorporadoras, imobiliárias, loteadoras, leiloeiros, administradoras e cooperativas habitacionais devem comunicar ao COAF operações consideradas suspeitas. A Resolução COFECI nº 1.551/2025 atualizou os procedimentos de comunicação ao COAF e reforçou a vigilância em transações imobiliárias digitais, considerando indícios como origem de recursos incompatível com a capacidade econômica, estruturas desnecessariamente complexas e comportamento atípico (fonte: LegisWeb / COFECI, 2025, legisweb.com.br).

Quem não identifica operação suspeita em um período deve apresentar a comunicação de não ocorrência — o silêncio não é opção regulatória (fonte: CRECI-PR, 2026, crecipr.gov.br). Para o diretor de compliance ou de risco, o KYB é o insumo que torna essas comunicações defensáveis: sem conhecer a contraparte, não há como avaliar se a operação é atípica.

Reforma tributária e o novo cruzamento de dados

A reforma tributária entra em vigor de forma escalonada entre 2026 e 2033, afetando incorporadoras, construtoras e imobiliárias na forma como operações são tributadas e reportadas. Até o ano-base 2026, o regime especial do patrimônio de afetação mantém a tributação unificada de IRPJ, CSLL, PIS/Pasep e Cofins à alíquota global de 4% sobre a receita mensal recebida, ou 1% para habitação de interesse social (fonte: Conjur, 2026, conjur.com.br). O efeito colateral relevante para o KYB é o aumento do cruzamento de dados fiscais: com nota fiscal totalmente digitalizada, divergências entre faturamento, folha e movimentação ficam mais visíveis — o que enfraquece a empresa de papel, mas exige que o contratante saiba ler esses sinais.

Síntese operacional para o diretor de risco

  • Antes de contratar: CNPJ ativo, CNAE coerente, QSA e beneficiário final mapeados, CEIS/CNEP limpos, capacidade operacional comprovada.
  • No contrato: cláusula que estenda a diligência aos subcontratados e exija atualização cadastral periódica.
  • Durante a obra: monitoramento contínuo de processos, certidões e listas restritivas; verificação de patrimônio de afetação no empreendimento.
  • Para conformidade: KYB documentado que sustente as comunicações ao COAF, incluindo a de não ocorrência.

O KYB na construção civil não elimina o risco — nenhum controle elimina. Ele transforma decisões cadastrais cegas em decisões informadas e auditáveis, que é o que a Lei Anticorrupção, as normas do COAF e o próprio crédito imobiliário em expansão passam a exigir em 2026.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre KYC e KYB?

O KYC (Know Your Customer) verifica pessoas físicas; o KYB (Know Your Business) verifica pessoas jurídicas, com camadas adicionais como quadro societário, beneficiário final e capacidade operacional da empresa.

Como identificar uma empresa de papel na cadeia de fornecedores?

Os sinais clássicos são faturamento declarado sem funcionários ou equipamentos compatíveis, CNAE incoerente com o serviço, abertura recente, sede em endereço virtual e sócios sem relação aparente com a atividade. Cruzar QSA, vínculos trabalhistas e histórico de obras revela a maioria dos casos.

A incorporadora é obrigada a comunicar ao COAF?

Sim. O setor imobiliário é regulado para PLD e deve comunicar operações suspeitas ao COAF, além de apresentar comunicação de não ocorrência quando nenhuma operação atípica for identificada no período, conforme a Resolução COFECI nº 1.551/2025.

Por que verificar o patrimônio de afetação faz parte do KYB?

Porque o patrimônio de afetação isola o empreendimento com CNPJ e contabilidade próprios, garantindo a conclusão da obra mesmo em insolvência da incorporadora. Sua existência é, ao mesmo tempo, controle de risco de crédito e indício de seriedade da contraparte.

Due diligence de fornecedor é evento único ou processo contínuo?

É processo contínuo. Abordagens maduras reavaliam idoneidade, processos judiciais e situação fiscal em ciclos periódicos ao longo da relação, não apenas na contratação, porque o risco da contraparte muda ao longo do tempo.

A reforma tributária muda o risco PJ na construção em 2026?

Indiretamente, sim. Ao ampliar a digitalização e o cruzamento de dados fiscais entre 2026 e 2033, a reforma dificulta a manutenção de empresas de papel, mas exige que o contratante saiba interpretar as divergências entre faturamento, folha e movimentação financeira.

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Fontes

  1. CBIC — Construção civil projeta 2026 mais positivo, impulsionado por crédito e investimentos (2026)
  2. CBIC Dados — Financiamento Habitacional SBPE (2026)
  3. Stripe — Know Your Business (KYB): A Guide for Businesses (2026)
  4. DirectD — Como automatizar due diligence em fornecedores em 2026 (2026)
  5. Ribeiro Cavalcante Advocacia — Lavagem de dinheiro e imóveis 2026 (2026)
  6. LegisWeb / COFECI — Resolução COFECI nº 1.551 de 14/08/2025 (2025)
  7. CRECI-PR — As normas do COAF para o setor imobiliário (2026)
  8. Protiviti — Diligência de fornecedores: qualidade e conformidade na cadeia (2026)
  9. Netrin — O que é Due Diligence de Fornecedores (2026)
  10. IRIB — O regime da afetação patrimonial na incorporação imobiliária (2026)
  11. Conjur — Reforma tributária sobre o patrimônio de afetação das incorporações (2026)
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